Psicose: o que é, as suas causas e o tratamento
De alguns anos para cá, muito se tem falado sobre transtornos mentais e seus cuidados, mas você sabia que, além das doenças psicológicas, é importante se atentar ao estado mental? A psicose, ao contrário do que muita gente imagina, é uma condição psíquica em que o indivíduo perde o controle da realidade.
Em conversa com a psicóloga Hellen Capel, graduada pela Unicesumar e especialista em Psicoterapia Psicanalítica Contemporânea pela EPPM, ela nos respondeu às seguintes dúvidas sobre o assunto:
- O que é psicose?
- Quais são as causas da psicose?
- Quais são os sintomas da psicose?
- Qual é o tratamento da psicose?
O que é psicose?

Se você é uma pessoa apaixonada por livros e filmes de terror, provavelmente já ouviu falar da obra: Psycho (Psicose), escrita pelo americano Robert Bloch. Nele, o personagem fictício Norman Bates, que possui Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), passa a perder o contato com a realidade, trazendo à tona alucinações e delírios, cometendo uma série de crimes.
Trazendo para o campo da psicologia, Hellen explica que a psicose não se trata apenas de um surto, como muitas vezes é interpretada, mas, na verdade, de um estado mental em que a pessoa não consegue diferenciar a realidade da imaginação.
“Freud, antigamente, descreveu a psicose como uma ruptura na relação do sujeito com a realidade, porque certos significantes fundamentais não puderam ser simbolizados. Também é algo do campo simbólico o sujeito tentar reconstruir a realidade da sua maneira”, comenta.
Em relação aos significantes fundamentais, eles dizem respeito às ideias e experiências colocadas na vida desde a infância, sendo pontos que desempenham um papel importante na formação de qualquer indivíduo, especialmente enquanto marcas simbólicas ligadas à linguagem e à constituição do sujeito.
Quando isso não acontece, a pessoa tem dificuldade em organizar suas ideias ou informações a partir de suas experiências. A partir disso, o que não é possível simbolizar retorna como angústias intensas, alucinações ou delírios, desencadeando a psicose.
Quais são as causas da psicose?
As causas da psicose podem variar de uma pessoa para outra, assim como não existe um único motivo para que ela aconteça.
Hellen explica que as causas estão ligadas a uma série de fatores. A história primitiva do sujeito, por exemplo, caracterizada pelos primeiros acontecimentos desde o seu nascimento, como experiências, relações com os pais e vivências emocionais, é um dos fatores que podem ter relação com essa condição psíquica.
“Não se trata de uma culpa, mas, sim, de uma estrutura do sujeito. Então, a gente pensa nas falhas da função materna, que seriam o acolhimento e a tradução das experiências emocionais, e também nas falhas da função paterna, como o limite, a nomeação e a inscrição do símbolo, além dos traumas que não puderam ser significados durante a vida desse sujeito.”
Contudo, além dessas experiências iniciais, a psicose pode vir à tona a partir do uso de algumas substâncias, como álcool e drogas. Além disso, eventos traumáticos ao longo da vida, como agressão física, mental ou sexual, a morte de um familiar próximo ou até mesmo um acidente, também podem desencadeá-la.
Não podemos deixar de mencionar também os fatores genéticos e biológicos. Afinal, em casos de transtornos psicóticos na família, há chances do indivíduo nascer com a mesma condição.
A seguir, separamos uma lista com algumas outras possíveis causas:
- Casos de insônia;
- Trauma pós-parto;
- Doenças neurológicas;
- Medicamentos com efeitos colaterais;
- Entre outros.
Quais são os sintomas da psicose?
A psicose, embora tenha como principal sintoma a perda de realidade, outros sinais são liberados a partir do momento em que não consegue compreender ou processar alguma situação que está acontecendo consigo naquele momento.
Entre os sintomas presentes, Hellen comenta que a pessoa que sofre com essa condição passa a ter delírios, que, em suas palavras, são “tentativas de reconstruir uma narrativa para o insuportável”. Um exemplo bastante comum é a sensação de estar sendo perseguido(a) a todo momento. Em outros casos, há também quem acredite ser alguém rico ou importante para a sociedade ou que alguém famoso tenha uma atração.
Outro exemplo são os casos de psicose em que a pessoa acredita em assuntos atrelados às catástrofes naturais e ao fim dos tempos.
Há também quem tenha como sintomas alucinações, acreditando estar ouvindo vozes ou até mesmo ver ou sentir a presença de alguém no lugar, sentindo constante medo. Confira alguns outros sinais de psicose, de acordo com a psicóloga:
- Retração social;
- Angústias intensas e sem forma;
- Sensação de desintegração do eu;
- Alterações do pensamento e da linguagem.
E complementa: “Para a psicanálise, os sintomas psicóticos não são um erro, mas uma solução possível diante de uma falha estrutural.”
Qual é o tratamento da psicose?

Muitas pessoas associam o tratamento psíquico a algo medicamentoso, sendo que, na verdade, vai muito além de tomar remédios. Isso porque, tratando-se de uma pessoa que está fora de si, é importante que o acompanhamento seja multidisciplinar. O que isso significa na prática?
O acompanhamento multidisciplinar consiste em ter mais de um profissional da área da saúde conduzindo o tratamento. No caso da psicose, o psiquiatra entra na parte de diagnosticar a condição e prescrever remédios, enquanto o psicólogo auxilia na parte comportamental, compreendendo o passado do paciente e outros fatores que levaram à condição.
Hellen comenta que, dentro da abordagem psicanalítica, que é a sua área de estudo e atuação, o tratamento consiste não apenas em normalizar a condição, mas oferecer um apoio de sustentação simbólica.
“Envolve a construção de uma relação terapêutica que sirva de apoio e continente para esse sujeito, ajudando-o a encontrar alguma lógica para o que o assombra, favorecer a estabilização subjetiva e aproximar o paciente de formas simbólicas positivas”, explica.
Quando buscar ajuda em casos de psicose?
Entender o momento de procurar ajuda pode ser difícil. Por isso, atente-se aos sinais: você teve sintomas psicóticos ou mudanças de comportamento consigo mesmo ou com pessoas à sua volta? Procure ajuda médica imediatamente!
“Quando há mudanças bruscas e inexplicáveis na percepção, no humor ou no comportamento desse sujeito; quando há angústias extremas, delírios, alucinações e desorganizações do pensamento; ou quando os familiares percebem que o sujeito também está perdendo sua referência no cotidiano”, traz exemplos a psicóloga.
Ao procurar ajuda, o paciente é acolhido e encaminhado para os profissionais adequados. Conhece alguém que está passando por isso? Preste o apoio inicial e oriente-o a buscar ajuda.